Na sequência das notícias que vieram recentemente a público que dão conta de que o Governo terá decidido propor duas novas travessias rodoviárias sobre o rio Tejo, a ZERO criticou o facto de que, num momento em que as emissões do setor dos transportes colocam gravemente em risco as metas climáticas do país, sejam apresentadas ideias que agravariam seriamente esses riscos através do aumento de capacidade dos acessos rodoviários à capital do país.
De acordo com a ONGA, quando a principal prioridade em mobilidade urbana deve ser a redução significativa do uso de transporte individual, a diminuição dos tempos de viagem no transporte público e compartilhado, além da eletrificação dos veículos de grande circulação, é incompreensível que se invista tempo e recursos na busca por formas de financiar grandes obras – como a construção de rodovias entre Algés e Trafaria e na ponte ferroviária essencial Barreiro-Chelas, que inevitavelmente aumentariam o uso de carros, os quais, em média, transportam apenas 1,2 passageiros.
A associação sublinha ainda que, com o passar do tempo, o tráfego rodoviário não abrandou, mesmo com introdução de comboio na ponte 25 de Abril. Em 1997, antes da introdução do serviço ferroviário na mais antiga travessia do Tejo, circulavam por dia cerca de 150 mil veículos, quase tanto como em 2024, a que se devem acrescentar 75 mil passageiros por dia que utilizam os comboios que entraram em serviço há pouco mais de 25 anos – dados partilhados pela IMT, Fertagus e INIR.
Para além do importante aumento de população nos concelhos da margem sul do Tejo nos últimos 25 anos, também o fim gradual do teletrabalho, o facto de a oferta ferroviária não acompanhar o sensível aumento da procura, a inexistência de acessos dedicados ao transporte público rodoviário regular (tanto a norte como a sul das pontes), e os gigantescos e inaceitáveis incentivos que as empresas oferecerem a quem utiliza transporte individual (combustíveis, viatura e parqueamento), são aspetos que contribuem fortemente para que o congestionamento das pontes se agrave de dia para dia.
Para começar a inverter a situação de forte congestionamento nas travessias sobre o Tejo, especialmente na Ponte 25 de Abril, a ZERO propõe 3 medidas essenciais:
- Adotar todas as medidas necessárias para assegurar que são disponibilizadas novas carruagens para fazer o serviço ferroviário, alugando ou comprando novo material circulante.
- Investir fortemente na criação de corredores dedicados ao transporte público rodoviário, tanto a norte como a sul das travessias sobre o Tejo, em linha com a rede de corredores dedicados que deverá estar presente no Plano Metropolitano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMMUS) em preparação.
- Introduzir portagens fortemente diferenciadas em função da taxa de ocupação dos veículos que atravessam as duas margens.
A ZERO defende que o fim das concessões das pontes sobre o Tejo é uma enorme oportunidade para adotar políticas que em simultâneo reduzam substancialmente o número de veículos rodoviários em circulação e promovam uma alteração do modelo de mobilidade, reduzindo a pressão sobre os recursos e trazendo justiça na utilização do espaço público nos centros urbanos da Área Metropolitana de Lisboa (AML).
Com o fim destas concessões, as portagens cobradas poderão financiar algumas das medidas fundamentais para a aceleração da necessária mudança no atual modelo de mobilidade, que a associação acredita que é claramente insustentável. Exemplos disto são o prolongamento para oriente do Metro Sul do Tejo, a densificação de corredores dedicados ao transporte público rodoviário ou o robustecimento dos interfaces de transporte público tanto a norte como a sul das travessias – de notar que a ZERO considera essencial investir nos interfaces metro-comboio de Alvito/Alcântara Terra, Campolide e Olaias/Chelas, que por sua vez serão cruciais para colocar mais comboios na atual e futura ponte e transportar mais algumas dezenas de milhar de passageiros por dia, tal como a ZERO salientou no seu parecer sobre o prolongamento da Linha Vermelha.
Para a ZERO, é absolutamente crucial a construção de uma ligação ferroviária entre Chelas e o Barreiro por quatro ordens de razões fundamentais: (1) estruturar o sistema de transporte público ferroviário na AML; (2) reduzir os tempos de viagem entre Lisboa e as cidades a sul do Tejo, atraindo mais passageiros; (3) tornar mais resiliente o transporte de mercadorias entre os portos do sul e as plataformas logísticas a norte de Lisboa; (4) e permitir que o tempo de viagem através da Alta Velocidade Ferroviária entre Lisboa e Madrid reduza drasticamente o uso do avião entre as duas capitais ibéricas.
A associação defende que esta travessia sem carros deve ser financiada através de fundos públicos nacionais e europeus e deverá equacionar o prolongamento do Metro Sul do Tejo pelo menos até ao Lavradio, a reativação do ramal do Montijo e a duplicação e prolongamento até à nova travessia ferroviária do atual ramal da Siderurgia em Paio Pires.