Saber quais são os grandes desafios que se colocam ao setor energético em Portugal nos próximos tempos foi aquilo a que se propôs a Ambiente Magazine neste trabalho. Para isso, ouvimos associações e empresas que nos apontaram a transição energética como um dos maiores desafios, indicando o que se pode fazer para atingir os resultados ambicionados.
As prioridades para alcançar os melhores resultados

Sabendo os desafios que temos pela frente e os resultados que queremos atingir, perguntámos aos nossos interlocutores quais são então as prioridades. E a coordenadora executiva da Coopérnico considera essencial adotar “uma abordagem estratégica que equilibre a urgência da descarbonização com a necessidade de integrar a sociedade no processo de transição”. Para Ana Rita Antunes, há que acautelar o investimento em energias renováveis endógenas e o envolvimento dos cidadãos e comunidades locais. O que obriga a uma maior digitalização e modernização das redes, uma revisão regulatória sobre os papéis dos diferentes atores e o envolvimento consciente para a sensibilização e educação dos cidadãos.

Já para Gonçalo Sampaio, da Omexom Portugal, as ações devem ser priorizadas com base em pilares essenciais como a sustentabilidade, inovação, diversificação e eficiência. E diz: “É essencial continuar a investir em projetos de energia renovável e na modernização da rede elétrica, para suportar a integração dessas fontes intermitentes no sistema energético nacional e, assim, contribuir para a redução da pegada de carbono”.
Quanto à promoção da inovação, o responsável considera que deve ocorrer por meio de parcerias entre o Governo, a academia e o setor privado para “impulsionar o desenvolvimento e a implementação de soluções avançadas”. Também a diversificação das fontes de energia é crucial para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, refere o managing director da Omexom. Assim como a introdução de alternativas, como o hidrogénio verde, juntamente com a adoção de sistemas de armazenamento, fundamental para aumentar a segurança energética e a resiliência do sistema. Por fim, não deixa de alertar que “a eficiência energética deve ser melhorada em toda a cadeia de valor e em todos os setores, da produção ao consumo, no intuito de garantir que cada unidade de energia seja utilizada da forma mais eficaz possível”.

O CEO da Manie, André Pedro, considera que a prioridade deve ser a eletrificação da economia e a eficiência energética. E acrescenta que projetos que incentivem a produção descentralizada, como comunidades de energia renovável, e investimentos em redes inteligentes para suportar maior variabilidade de produção, são cruciais. André Pedro conclui defendendo o aumento da literacia energética do consumidor, para promover escolhas mais conscientes.

Por sua vez, Raul Santos, da SunEnergy, é apologista de que se devem pôr em marcha ações com resultados expectáveis a médio-longo prazo com “alguma celeridade”, considerando que “a aposta na eficiência energética e nos sistemas de armazenamento poderão ser essenciais na redução da nossa dependência energética nas próximas décadas”.

Ainda do lado das empresas, João Guerra, da Helexia Portugal, lembra que embora Portugal já tenha uma base forte de energias renováveis, é necessário aumentar ainda mais a capacidade instalada e melhorar a integração destas fontes na rede elétrica. E aponta o dedo à questão do consumo, defendendo que “temos, imperativamente, de reduzir consumos e isso não significa reduzir a capacidade de produção da indústria ou diminuir os níveis de conforto na hotelaria – implica fazer mudanças, otimizar o consumo e apostar mais em sistemas de gestão de energia”. Outra peça que considera crucial nesta transição é a promoção do transporte público, algo que deve ser acompanhado de melhorias na eficiência e na cobertura destes serviços, pois “a mobilidade elétrica também tem um papel importante”. E uma vez que são cada vez mais as frotas e veículos particulares eletrificados, “devemos garantir que essa eletrificação seja alimentada por fontes renováveis e que haja uma infraestrutura de carregamento adequada para sustentar a transição”.
Associações definem ações prioritárias

A nível associativo, a APE considera que é essencial que as ações para se atingir as metas energéticas sejam priorizadas com base no impacto imediato e na sustentabilidade a longo prazo. E, para o presidente da direção, João Torres, o destaque deve recair, neste momento, sobre iniciativas que acelerem o desenvolvimento de energias renováveis, como a simplificação de processos de licenciamento e o aumento da eficiência na execução de projetos. Em paralelo, o responsável adianta que é também fundamental a criação de uma infraestrutura robusta de armazenamento de energia para compensar a variabilidade das energias renováveis e garantir a segurança do abastecimento. E salienta que investir em baterias e sistemas de bombagem permitirá equilibrar a oferta e a procura de energia, especialmente em períodos de baixa produção renovável, contribuindo para um sistema mais estável.
Por outro lado, o presidente da direção da APE aponta como prioridade a modernização da rede elétrica para suportar o aumento das fontes renováveis e o crescimento na procura de energia. “Uma rede inteligente possibilitará uma distribuição mais eficiente e flexível, acomodando, tanto os fluxos variáveis de energia renovável, quanto as futuras necessidades de eletrificação, como a expansão da mobilidade elétrica e a eletrificação de processos industriais, por exemplo a produção de H2 verde”, acrescenta.
Também crucial é o estímulo à inovação em tecnologias de energia limpa, o que permitirá que Portugal acompanhe a evolução tecnológica e otimize o uso de recursos, frisa o responsável. Por fim, João Torres chama a atenção para a importância do desenvolvimento de competências verdes para garantir que Portugal tenha a força de trabalho qualificada, necessária para implementar estes projetos. E destaca: “Investir em formação e capacitação em áreas-chave, como instalação e manutenção de renováveis, redes inteligentes e armazenamento, é um passo estratégico para assegurar o sucesso das metas previstas no PNEC 2030.”

Na APREN, é essencial a desburocratização dos processos de licenciamento para acelerar a implementação de novos projetos renováveis pois, segundo Pedro Amaral Jorge, CEO, “os atrasos atuais comprometem o cumprimento das metas nacionais de transição energética”. Também defende a criação célere de um portal digital de licenciamento único para facilitar a implementação dos projetos e garantir maior previsibilidade aos promotores.
Em simultâneo, a associação considera fulcral modernizar e expandir a rede elétrica, tanto em termos de capacidade como de digitalização, para suportar o aumento da eletrificação e integrar de forma eficiente a eletricidade proveniente de fontes renováveis. E recorda que a melhoria das infraestruturas de transporte e distribuição de eletricidade é extremamente importante para garantir a segurança de abastecimento e a competitividade no mercado europeu.
Por último, a APREN destaca a implementação do novo desenho de mercado, de forma a serem criadas condições que favoreçam o investimento privado, como a implementação de contratos de longo prazo (PPAs) e Contratos por Diferença (CfDs), que garantam a bancabilidade dos projetos e incentivem a entrada de capital no setor.

Por fim, ouvimos a ADENE que aponta como essencial que a priorização das ações tenha em conta os impactos ambientais, sociais e económicos de forma integrada. O presidente, Nelson Lage, acredita que “Portugal estará mais apto a atingir os seus objetivos de descarbonização se adotar uma estratégia alinhada com os instrumentos de política energética disponíveis, tanto a nível nacional, como europeu”.
Deste modo, a associação considera prioritária descarbonização dos transportes, por um lado, e, por outro, a expansão das energias renováveis, permitindo a construção de novas unidades de geração de energia eólica e solar, aproveitando o potencial de Portugal, em especial na criação de projetos de Comunidades de Energia Renovável e de Autoconsumo. E o responsável declara que “temos de otimizar a produção solar fotovoltaica, a eólica offshore e outras tecnologias emergentes, nomeadamente na procura de soluções de armazenamento de energia, como baterias e o incremento de projetos de hidrogénio, de forma a garantir a estabilidade do sistema elétrico nacional”.
Outra prioridade nacional deverá ser a agilização dos processos de licenciamento e a implementação de redes inteligentes, bem como a implementação de programas de reabilitação energética nos edifícios, ou o apoio à indústria na implementação de tecnologias eficientes.
Nelson Lage sugere ainda que Portugal deve aproveitar os fundos europeus disponíveis para a transição energética, apostando em mecanismos financeiros que atraiam o investimento privado, como por exemplo, a aposta nos leilões de energia renovável e o desenvolvimento dos sistemas de comércio de emissões de carbono. E termina defendendo a implementação, de forma efetiva, da Lei de Bases do Clima e a adoção de políticas públicas mais ambiciosas, assegurando que cada medida contribua diretamente para os compromissos climáticos de Portugal.
Publicado na edição 108 da Ambiente Magazine
Lê aqui a primeira parte:
(I) Quais os grandes desafios do setor energético em Portugal?